Install this theme
brazilwonders:

Gamboa de Baixo - Salvador, Bahia (by Yaci Andrade)

brazilwonders:

Gamboa de Baixo - Salvador, Bahia (by Yaci Andrade)

bevare:

Nobuyoshi Araki, Theatre of Love, 1965

bevare:

Nobuyoshi Araki, Theatre of Love, 1965

"Em uma armação presa à parede da choupana está exposto um livro de recordações, em que os viajantes podem perpetuar suas impressões. A anotação feita por Arthur foi descoberta nele: ‘Quem pode erguer-se sobre as montanhas e depois calar-se?"

Arthur Schopenhauer, 30 de julho de 1804, da montanha Schneekopp

Uma conversa com Lou Reed

“Como é seu nome? Lara? Assim que se escreve?” “Isso.” Estava tão impressionada com Lou Reed na minha frente que agi como uma fã boba e não disse nada do que havia planejado, um clichê.

Transformer, o disco mais popular da carreira solo de Lou Reed, havia sido lançado 38 anos antes daquela noite de autógrafos, talvez um dos poucos álbuns que posso garantir que sempre estará entre minhas opções na hora de escutar algo. E seria repetitivo dizer que o músico e o Velvet Underground, com seus temas sobre um submundo onde reinam usuários de drogas, travestis e prostitutas, foram precursores do melhor que o rock produziu nos anos 70 e 80 - assim como não é novidade afirmar que o movimento punk, o gótico, o glam rock, o pós-punk, etc., não existiriam sem eles.

No entanto, ao ouvirmos Transformer, nos deparamos com versos como: “Oh, such a perfect day/You just keep me hanging on”“When I feel good, I’m so free/Early in the morning, I’m so free/Late in the evening, I’m so free, I’m so free”, e “When you’re in bed it’s so wonderful/It’d be so nice to fall in love”. Essas letras não parecem contraditórias quando pensamos que foram escritas por alguém com a fama de Lou Reed?

A realidade é que sua carreira possui uma coerência temática como poucas. Apesar de ter composto canções clássicas sobre o desespero, Lou Reed sempre moderou o tom de suas visões pessimistas com elementos de compaixão e esperança. Trata-se daquele tipo de artista que se projetava emocionalmente nas vítimas da solidão, alienação e marginalização, heróis que ele costumava cantar como personagens de uma verdadeira epopeia: primeiro descrevendo clinicamente suas origens no lado underground da metrópole para depois participar de suas derrotas dolorosas. Daí o espaço para a redenção que somente um autor que se identifica com suas criações pode oferecer.

Assim, não é surpresa encontrar em suas letras referências aos vários tipos de agressões que angustiam os diferentes. Mas Lou Reed ofereceu algumas alternativas a esse cenário: Seu primeiro ato de rebelião foi um flagrante incitamento ao uso de drogas (principalmente a heroína), num exame artístico que atribui ao seu consumo um tipo de salvação de estatuto religioso. No entanto, em seguida, com a maturidade, suas letras passaram a refletir uma postura de indiferença com aqueles que se incomodam com seu comportamento fora do comum, e grande parte de suas canções passaram a querer dizer Eu simplesmente não me importo. Seu exílio moral torno-se uma de suas marcas, lançando discos experimentais e vanguardistas de nenhum apelo popular (Metal Machine Music), cantando de modo cada vez mais falado e frio e desprezando jornalistas por onde passava.

Não foi à toa que um dos livros que pedi para Lou Reed autografar foi “Uma temporada no inferno”, de Arthur Rimbaud, para o qual ele não deu a menor bola depois da simpatia inicial. Mas não me importo, pois se há algo que Lou me deixou foi exatamente isso.

É preciso reformular a questão cartesiana, e perguntar: “Que devo ser eu, eu que penso e que sou o meu pensamento, para eu ser o que eu não penso, para que meu pensamento seja o que eu não sou?

M. Foucault